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| As aparências podem enganar até os mais precavidos em nossa sociedade |
SILAS GEHRING CARDOSO
A vida ensina as pessoas e os grupos constituídos, através de sucessivas experiências. O jovem, quando está ingressando na vida adulta, tem uma visão maniqueísta da vida, isto é, julga que, de um lado estão só os bons e de outro lado, só os maus. E dentro dessa sua visão, ele luta, com toda energia e impetuosidade que lhe são características, em defesa dos “bons” e contra os “maus”. No entanto, à medida que ele vai amadurecendo, começa a perceber que sua ingenuidade o levou a sofrer ciladas e que, por muitas vezes, foi usado pelos mais espertos. Vai perceber ainda, muitas vezes tardiamente, que cometeu erros de julgamento. Vai concluir que muitos “elogios” que recebeu pela sua “coragem” na realidade eram afagos dos que muitos ocultavam suas verdadeiras intenções, porque queriam manter os privilégios. Verificará que, bastava que alguma idéia ou projeto aparecesse mudando seriamente as estruturas vigentes, para então começarem a surgir reações e resistências, ocultas ou ostensivas, por parte daqueles que , de uma forma ou de outra, julgam seus interesses ameaçados. Mais tarde, terá novas desilusões, contrastando a existência de pessoas que exploram vergonhosamente os mais humildes, trapaceiam os incautos apropriam-se, mediante extorsões dos bens de pessoas em dificuldades, chantageiam os mais assustados, e daí por diante.
Recordo-me sempre, em minhas matérias, de um artigo do teólogo Themudo Lessa, onde ele analisa um episódio da Noite de Natal. Conta que nessa noite, em determinado bordel, as prostitutas comemoravam o Natal bebendo junto a seus clientes, em circunstancias bastante características. A alguma distancia dali, numa fina residência, uma família também comemorava o Natal, só que ao som de hinos religiosos e ao aconchego do carinho familiar. A pergunta feita pelo teólogo é a seguinte: qual das duas situações mais corresponde a um verdadeiro natal cristão ? A maioria das pessoas responderá que é o natal comemorado naquela residência. E a resposta está errada, porque o chefe daquela família era exatamente, o dono do bordel. O natal supostamente “cristão” que estava proporcionando à sua família, era à custa da exploração daquelas infelizes. Quanta coisa semelhante não acontece por aí, em nossa sociedade ?
Para complicar esse quadro, vemos que muitas daquelas organizações que deveriam pela lógica, defender os mais humildes, mais estiveram ou estão ao lado dos poderosos, servindo até mesmo de instrumento para neutralizar a luta dos oprimidos. Mesmo em comunidades menores é possível perceber-se, com clareza, a ação nociva desses grupos.
Só a persistência fará com que se encontra o caminho adequado para mudar as estruturas que até aqui estão permitindo que minorias ágeis e espertas consigam manipular e cercear a vontade da esmagadora maioria da população.
* Silas Gehring Cardoso é redator-chefe dos jornais FOLHA DE ITAPETININGA e TRIBUNA POPULAR
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